quinta-feira, 15 de março de 2012

CONTRADIÇÃO NA POLÍTICA ECONÔMICA GERA MAIS PREJUIZOS

Cortes em ciência e o país em marcha à ré


Em nome do superávit primário, eles causarão prejuízos muito grandes na competitividade da indústria brasileira; não é uma questão corporativa ou salarial

Helena Nader* –  Tendências e Debates - Folha de São Paulo-  15- 03-2012

Os cortes de R$ 1,48 bilhão (22%) e de R$ 1,93 bilhão (5,5%), respectivamente, nos orçamentos dos ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e da Educação (MEC), anunciados recentemente pelo governo federal, são deveras preocupantes quando se tem como compromissos o desenvolvimento sustentável, a competitividade da economia brasileira e o bem-estar de nossas gerações presentes e futuras.


Não se duvida das necessidades macroeconômicas que levaram o governo a promover uma redução de R$ 55 bilhões em seus gastos em 2012. Mas não podemos concordar que, em nome do aumento do superávit primário e da redução da dívida pública, seja comprometido o futuro do Brasil e dos brasileiros.


Não sabemos o quanto os cortes no MCTI e no MEC ajudarão no desempenho das contas federais, mas temos certeza sobre as suas repercussões na vida do país: prejuízos às medidas que visam reduzir o nosso inaceitável déficit educacional e à projeção no cenário científico e tecnológico mundial, além da diminuição da já precária competitividade da indústria brasileira.


Esses aspectos, convenhamos, não condizem com a condição de sexta economia mundial, posição que foi comemorada pelo governo.
Educação de qualidade e produção de C&T avançadas são prioridades para o desenvolvimento nacional. Para ficar na comparação apenas com dois emergentes, a Coreia do Sul ocupa a 15ª posição no ranking de IDH e tem renda per capita PPC (paridade de poder de compra) de US$ 31.753; a Finlândia tem a 22ª posição no IDH e renda per capita PPC de US$ 40.197.


Já o Brasil ocupa a 84ª posição, com renda per capita PPC de US$ 11.767. Os investimentos públicos e privados em P&D (pesquisa e desenvolvimento) nesses países com relação ao PIB: Finlândia, 3,84%; Coreia do Sul, 3,36%; Brasil, 1,19%.


É preocupante a morosa evolução dos dispêndios em P&D com relação ao PIB no Brasil. Se em 2001 o investimento público em P&D correspondia a 0,57% do PIB, em 2004 esse índice baixou para 0,48%.


Em 2010, chegou a 0,63%, mas há o receio de que o valor volte a cair no fechamento das contas de 2011, uma vez que no ano passado, apesar do crescimento do PIB, aconteceram cortes nos gastos com P&D.


Há que se notar que os cortes no MCTI têm um agravante. Boa parte do seu orçamento sai do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), constituído por contribuições compulsórias de setores como petróleo, energia elétrica, transporte e informática.

No entanto, o governo federal, com a justificativa do superávit primário, retém parte dos recursos do FNDCT que, por lei, deveriam ser aplicados em ciência, tecnologia e inovação. Estudos apontam que de 2006 a 2010 a arrecadação do FNDCT somou R$ 11,8 bilhões, dos quais o governo reteve R$ 3,2 bi.


É importante que a sociedade saiba que as nossas reclamações contra os cortes em ciência não tem qualquer relação com questões de natureza corporativa ou salariais.

Nosso objetivo é contribuir para o desenvolvimento da ciência, da tecnologia e da inovação como componentes fundamentais para o crescimento socioeconômico do Brasil.


Temos claro que os cortes no MEC e no MCTI causarão prejuízos infinitamente maiores do que o montante que se está economizando agora

*HELENA NADER, 64, biomédica, é presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), membro da Academia Brasileira de Ciências e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

segunda-feira, 12 de março de 2012

BB ORWELL: PEQUENAS VARIAÇÕES SOBRE O MESMO TEMA

Dados grávidos

JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO - O Estado de S.Paulo / 12-03-2012

Nos EUA, um pai ficou indignado ao encontrar, na sua caixa de correio, cupons de desconto para roupas de bebê enviados por uma cadeia de varejo em nome de sua filha menor de idade. Acusou a loja de tentar induzir a garota a ser mãe precocemente. Mas, após confrontar a adolescente, descobriu que a filha já estava grávida. Só ele não sabia.


Os estatísticos da loja de departamentos Target não tiveram acesso a nenhum teste de gravidez. Apenas inferiram que aquela consumidora iria dar à luz cruzando informações de compras: a mudança no seu padrão de consumo era consistente com o de outras grávidas. Foram tão precisos quanto um exame de ultrassom.


A história - quase boa demais para ser verdade - ilustra reportagem do The New York Times intitulada Como companhias aprendem os seus segredos. A rigor, não é dos segredos de uma pessoa, mas dos hábitos da multidão, que as empresas estão atrás. Juntando os seus aos meus, descobrem os nossos. Tudo para determinar padrões e prever comportamentos. No conjunto, somos muito mais parecidos uns com os outros do que gostamos de admitir.


Na reportagem, analistas da Target revelaram, orgulhosos, como são capazes de prever, com pequena margem de erro, a data do parto ou o sexo da criança. Tudo com base no consumo de loção de pele, na quantidade de tufos de algodão comprados e na cor do tapete encomendado para o quarto do bebê. Esses itens fazem parte de uma cesta de 25 produtos que compõem o "índice de predição de gravidez" criado pela loja. Não é piada, é dinheiro.


Você pode achar que ninguém está prestando muita atenção em como usa seu cartão de crédito, no que faz com seu mouse e com seu celular ou por onde você anda com seu carro, mas isso não muda o fato de que há gente cuja missão profissional é colecionar, organizar e analisar dados sobre você. É íntimo, mas não é pessoal: é universal.


Código numérico. No mundo do chamado "Big Data", o nome importa menos que o CPF, que o endereço eletrônico ou que o número do cartão de crédito. Importante é juntar dados sobre a maior massa possível de consumidores, contribuintes, motoristas e internautas. Não para espioná-los - em princípio -, mas para transformar cada um deles num código numérico unificado. Afinal, há menos algarismos do que letras, o que agiliza a computação.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

COBERTURA DO CASO ELOÁ COMEÇOU MAL DESDE O SEQUESTRO

O papelão da mídia em Santo André


Rubens Zaidan

O julgamento em Santo André do motoboy Lindemberg Alves, acusado de ter assassinado a namorada Eloá Pimentel, de 15 anos, em outubro de 2008, depois de mantê-la refém por mais de cem horas (acusação principal), provoca necessárias reflexões sobre o papel da imprensa e da mídia em geral, nesse e em outros casos em que a cobertura é de uma situação-limite.

O papel da mídia numa sociedade democrática é não só atender o direito do cidadão à informação factual, permitindo que tire suas próprias conclusões, mas também abastecer esse consumidor de visão diversificada e crítica. Com o crescimento ininterrupto das redes sociais, esse consumidor ganhou também outros canais  para se posicionar e debater o problema.

 Muitos profissionais da imprensa, por estratégia de sobrevivência ou por inconsciência total, não questionam o dia-a-dia da função jornalística.Felizmente, ainda existem nichos de "resistência" em meio ao caos desenfreado desse pragmatismo irresponsável.

 Em 2008, a mídia interferiu sim no desenrolar do sequestro de forma irresponsável, especialmente quando vidas estavam em jogo, nas mãos do sequestrador em pleno surto psicótico.Nesse momento, cada passo, palavra ou gesto, tem que ser calculado, de modo a garantir a sobrevivência de reféns. Não foi o que aconteceu.

 Quem não se lembra que Rede TV, Globo e Record, transmitiram entrevista ao vivo com o sequestrador, alegando que estavam fazendo seu trabalho. A Bandeirantes e o SBT não se interessaram. Na época, o advogado do sequestrador ofereceu entrevista dele ao SBT, que disse claramente não querer fazer sensacionalismo..
E como os policiais e negociadores permitiram ou se omitiram diante dessa “cobertura-circo”? Como deixaram que a segunda refém, amiga de Eloá, que depois acabou baleada e quase morreu, retornasse ao cativeiro? Liberar a imprensa para entrevistar o bandido "ao vivo", em pleno andamento das negociações, criou no motoboy uma ilusão de poder,como se estivesse no centro de comando do espetáculo.

Sou da escola de jornalismo que enquanto um sequestro estivesse em andamento, a mídia em geral e especialmente as emissoras de tevê, guardavam silêncio, sem deixar de acompanhar o caso. Todos sairiam ganhando com isso. Não se trata de censura prévia, mas de estratégia. Não se trata de sonegar  informação, mas adequar esse direito a uma circunstância em que a vida da vítima não corre mais risco.

Sou contra a transmissão ao vivo desse tipo de evento, por razões óbvias. O seqüestrador sempre tem uma tevê ou rádio no cativeiro e vai se adequar ao circo formado. Não basta cortar a luz do imóvel, é preciso que apenas o negociador seja seu canal de comunicação com o resto do mundo.

As emissoras poderiam gravar e entrevistar quem quisesse, como fazem os jornais. Mas só iria ao ar depois do seqüestrador ter se entregado ou liberado as vítimas. Pena que as próprias emissoras - com algumas exceções- não tenham tomado essa decisão. Depois  do pior, só nos resta correr atrás do prejuizo e tentar fazer justiça.

domingo, 22 de janeiro de 2012

SIGNIFICADO PLANETÁRIO DA TRAGÉDIA COM O NAVIO CONCÓRDIA

'Vada a bordo, #&%@!'

Em certas situações, nada supera a arrebatada língua italiana e seus termos que parecem já vir com ponto de exclamação

Sérgio Augusto - O Estado de S.Paulo -   22-01-2012
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,vada-a-bordo-@!,825740,0.htm

Novo meme na praça. Sai "Menos a Luiza, que está no Canadá" (até porque ela está de volta) e entra "Vada a bordo, cazzo!". O resto do mundo não tomou conhecimento do bordão paraibano, febre na internet de fala portuguesa, mas a curta e grossa ordem do comandante da Capitania dos Portos de Livorno ao capitão do Costa Concordia já estampa até camisetas ucranianas. Sempre na versão original, eufonicamente insuperável. Experimente: "Volte já pro navio, cacete!" Não tem o mesmo efeito.

Em determinadas situações, nada compete com a arrebatada língua italiana. Palavras como "disgraziato" já vêm com um ponto de exclamação embutido. Operístico e tragicômico, quase tudo em italiano parece subir pelas paredes e descambar para a galhofa. "Disgraziati!" foi o que Fabiola Russo, mulher de Francesco Schettino, o capitão do sinistrado navio, berrou para os repórteres e paparazzi que se acotovelavam à porta da casa do casal, em Meta di Sorrento, na província de Nápoles. Já vimos a cena um sem-número de vezes no cinema.

Nem a xingação de Fabiola nem a solidariedade de parentes, vizinhos e amigos ("é um grande sujeito", disseram uns, "sempre pronto a ajudar o próximo", afiançaram outros, "o que estão fazendo com ele é uma infâmia, uma crueldade, um linchamento midiático", protestou dom Genaro Starita, pároco da cidade, "ele ajudou a salvar milhares de passageiros", socorreu-lhe uma amiga moldávia, testemunha ocular da colisão) conseguiram aliviar a barra do capitão, que antes mesmo de admitir sua barbeiragem já fora arrastado pela mídia ao Gólgota da difamação.
Um canal de televisão atribui-lhe "traços lombrosianos"; outro comparou-o maliciosamente ao comandante da antiga telessérie O Barco do Amor; um colunista de província, pegando carona na invectiva de um procurador, tachou Schettino de "scellerato". Estava armada a catarse de um povo que o atual arrocho econômico tornou ainda mais propenso à histeria.
O desastre em si, simbolicamente enriquecido pela evocativa imagem do navio a soçobrar (que nem a Itália, que nem o euro, que nem a União Europeia), foi relativamente modesto em número de vítimas: 11 mortos e 21 desaparecidos. Só o transatlântico italiano Andrea Doria, naufragado a caminho de Nova York em 1956, levou para o fundo do Atlântico 51 pessoas, estatisticamente irrisório se comparado ao naufrágio do Titanic (1.517 desaparecidos), para não mencionar os campeões da categoria: Doña Paz (1987, Filipinas, 4.375 mortos), MV Le Joola (2002, Costa de Gambia, 1.863) e o vapor Sultana (1865, Rio Mississippi, 1.800).
Uma catarse com direito a vilão e herói claramente definidos: Schettino, o bode expiatório para desafogar uma raiva coletiva recalcada há não sei quantos anos, e Gregorio De Falco, comandante da Capitania dos Portos de Livorno, o oficial imaculado para aplacar a honra ferida da coletividade - o italiano mau, "vigliacco", e o italiano bom, eficiente.
"Io sono De Falco" (Eu sou De Falco) virou brado na blogosfera, a propagar um equívoco que o próprio comandante apressou-se em desfazer. "Só cumpri com meu dever", reiterou várias vezes o autor de "Vada a bordo, cazzo!". Como De Falco não arriscou sua vida, o sine qua non do heroísmo, o único herói do resgate aos passageiros do Concordia acabou sendo aquele comissário de bordo que, mesmo ferido na perna, continuou salvando gente.
Segundo o jornal La Stampa, de Turim, Schettino e De Falco nunca se toparam. Temperamentos conflitantes. O primeiro é extrovertido, bon vivant, gozador; o segundo, tímido, arredio, certinho. Dionísio e Apolo. Eis um contraste na medida para o fino olhar de Umberto Eco, que ainda não se manifestou a respeito do desastre, mas é provável que o faça em sua próxima coluna na revista L'Espresso, comparando Schettino, suponho, não a Berlusconi mas ao desertor Henry Fleming de O Emblema Vermelho da Coragem, de Stephen Crane, e a Lord Jim, o conflituoso homem do mar criado por Joseph Conrad.
Fleming e Jim são os dois mais notórios paradigmas da covardia que o imaginário criou nos últimos 120 anos, com ligeira vantagem para o personagem de Conrad: Jim, afinal, também abandonou os passageiros de um navio à própria sorte no meio de uma viagem. Todos se salvavam, menos Jim, que, transformado em bode expiatório de um delito com vários culpados, passava o resto da vida tentando purgar sua culpa nos cafundós da Malásia.
Um segundo vilão veio à tona na tragédia anunciada do Concordia: o prefeito da Ilha Giglio, Sergio Ortelli. É o maior incentivador dos shows de exibicionismo que os colossais cruzeiros turísticos costumam fazer a uma distância temerária da costa, com todas as luzes acesas e sirenes a mil decibéis, para ele, "um espetáculo inigualável" e "uma tradição indispensável", disse-o por e-mail ao comandante do Concordia, em agosto. A revista alemã Der Spiegel revelou o e-mail; o diário italiano Corriere della Sera pespegou-lhe o apelido de "magnetizador de cruzeiros" (que, obviamente, soa melhor no original, "sindaco acchiapa navi da crociere").
Há fortes interesses eleitoreiros em jogo nas relações entre os políticos italianos, sobretudo dos prefeitos, e as empresas de navegação turística. Se Schettino tem partes com Lord Jim, Ortelli lembra o prefeito do filme O Tubarão, que se recusava a suspender o banho de mar em suas praias para não afetar o afluxo de turistas.
Depois do desastre do dia 13, Ortelli não falou mais em "tradição", que não é uma exclusividade da Ilha de Giglio nem do Tirreno, mas uma praga de toda a costa italiana, tema, aliás, de um recente dossiê da L'Espresso, pautado pelo estrago ambiental que mastodontes do porte do Concordia (59 m de altura, 294 m de comprimento, 3.800 passageiros) e até maiores vêm causando à Lagoa de Veneza. Ano passado, 800 navios dessa envergadura despejaram 2 milhões de turistas em Veneza, provocando o mesmo impacto que 11 milhões de automóveis causariam ao meio ambiente. De que adianta proibir a circulação de veículos dentro de Veneza se os seus maiores danos vêm pelo Adriático?  

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

GRUPO COM NITROGLICERINA APRESENTA DISFUNÇÃO CARDÍACA MAIOR

Coração ganha novo aliado contra infartos
Por Mônica Pileggi
Agência FAPESPUm estudo publicado na revista Science Translational Medicine, com participação de bolsista da FAPESP, descreve uma molécula que, administrada juntamente com a nitroglicerina, pode evitar infartos mais graves decorrentes da tolerância ao composto. A nitroglicerina é um composto químico explosivo obtido a partir da reação de nitração da glicerina. Além de sua aplicação em explosivos, o composto é utilizado na medicina há séculos como vasodilatador no tratamento de dores no peito, conhecidas como angina. O tratamento também é utilizado nas salas de emergência de hospitais, quando pacientes chegam com sinais de infarto agudo de miocárdio.
Entretanto, os benefícios da nitroglicerina para o coração estão limitados pelo desenvolvimento de tolerância ao composto. Na pesquisa, realizada no Departamento de Química e Biologia de Sistemas da Escola de Medicina da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, o brasileiro Julio Cesar Batista Ferreira e o chinês Lihan Sun, doutorandos na instituição, descobriram que a intolerância à nitroglicerina não se deve somente à perda do efeito vasodilatador do medicamento.
Segundo Ferreira, quando precedido do infarto do miocárdio, o uso sustentado de nitroglicerina pode causar efeitos devastadores ao coração. O estudo foi coordenado pela professora Daria Mochly-Rosen.
A tolerância à nitroglicerina é resultado da inativação da aldeído-desidrogenase 2 (ALDH2), uma enzima essencial para a proteção cardíaca em humanos e animais vítimas de infartos. O trabalho teve seus resultados publicados no início do mês na Science Translational Medicine.
O estudo verificou que a molécula ALDA-1, também descoberta pelos pesquisadores de Stanford, é capaz de manter o funcionamento de ALDH2 e evitar efeitos deletérios decorrentes da tolerância à nitroglicerina durante o ataque cardíaco.
Ferreira fez Mestrado, Doutorado e Pós-Doutorado na Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP), com bolsas da FAPESP, e está atualmente em Stanford. Em 2012, retornará à USP, após ter sido aprovado em concurso para lecionar no Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas.
De acordo com Ferreira, ao ser administrada junto à nitroglicerina, a ALDA-1 mantém a enzima ALDH2 ativada durante o infarto do miocárdio, inibindo os efeitos prejudiciais ao coração da tolerância à nitroglicerina.
“Em casos de dores no peito e infarto, médicos costumam administrar a nitroglicerina em ciclos on/off – de 16 horas com o fármaco e 8 horas sem –, na tentativa de mascarar o efeito de tolerância. Mas esse período prolongado leva à inativação da ALDH2, fator que eleva as chances de um infarto mais grave”, disse à Agência FAPESP.
O pesquisador explica que a ALDH2 é uma enzima mitocondrial cujas funções são essenciais no sistema cardiovascular, entre as quais catalisar a conversão da nitroglicerina ao vasodilatador óxido nítrico e remover aldeídos tóxicos produzidos durante o infarto do miocárdio.
“Com a inibição dessa enzima pelo excesso de nitroglicerina, esses aldeídos se acumulam no coração e passam a se ligar a proteínas, lipídios e ao DNA, resultando na morte celular durante o infarto do miocárdio. Com a ALDH2 ativada, é possível remover com mais facilidade esses aldeídos, minimizando os danos ao coração”, disse Ferreira.
O estudo foi feito em ratos. Após a administração da nitroglicerina por 16 horas, os pesquisadores induziram infarto do miocárdio nos animais e observaram que o grupo com nitroglicerina apresentou disfunção cardíaca maior do que os demais ao longo de três semanas após o infarto.
“Porém, quando administramos a nitroglicerina combinada à ALDA-1, os efeitos deletérios da tolerância ao medicamento não se manifestaram”, destacou.
O artigo ALDH2 Activator Inhibits Increased Myocardial Infarction Injury by Nitroglycerin Tolerance (doi: 10.1126/scitranslmed.3002067), de Júlio Cesar Batista Ferreira e outros, pode ser lido por assinantes da Science Translational Medicine em http://stm.sciencemag.org/content/3/107/107ra111.abstract  

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

EXPERIÊNCIA SUGERE NOVA FORMA DE TERAPIA DA HIPERTENSÃO

TREINO DE FORÇA REDUZ PRESSÃO 
 ARTERIAL EM HIPERTENSOS
Portadores de hipertensão que realizaram treinamento de força (musculação) conseguiram reduzir a pressão arterial a níveis semelhantes aos obtidos por meio de medicamentos, revela pesquisa com a participação da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. O estudo comprova que o treino de força é seguro para os hipertensos, desde que com acompanhamento médico e de profissionais de atividade física. O trabalho também mostrou que a redução da pressão permanece por até quatro semanas após a interrupção do treinamento.



Musculação apresenta efeito benéfico no controle da pressão arterial em hipertensos

A pesquisa com hipertensos faz parte da pesquisa de Doutorado em Biofísica de Newton Rocha Moraes, realizado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), orientada pelo professor Ronaldo Carvalho e co-orientada por Reury Bacurau, professor do curso de Ciências da Atividade Física da EACH. “Na literatura científica há vários estudos que mostram o efeito positivo do exercício aeróbio, como corridas e natação, no controle da pressão”, diz Bacurau, “mas o benefício da musculação era pouco conhecido”.
Participaram do estudo 15 homens com hipertensão moderada, que utilizavam medicação, com média de idade em torno de 46 anos. Durante seis semanas antes do início do treinamento, com supervisão médica, os medicamentos foram gradativamente retirados. “Os pacientes eram examinados periodicamente e não tinham nenhuma outra doença crônica, como diabetes”, aponta o professor da EACH. Os exercícios foram realizados durante 12 semanas, trabalhando sete grupos musculares (abdômen, pernas, parte interna e externa das coxas, ombros, biceps e tríceps) três vezes por semana, em dias não consecutivos.
“Apesar do treino ser o mesmo que é voltado para iniciantes, os participantes realizavam musculação convencional, ou seja, três séries em cada aparelho com carga moderada, e não em circuito, mudando de aparelho a cada série, com carga baixa”, ressalta Bacurau. Com o treinamento, a média de pressão dos pacientes, que era de 153 milímetros (sistólica, associada ao bombeamento de sangue pelo coração) e 96 milímetros (diastólica), caiu para 137 milímetros (sistólica) e 84 milímetos (diastólica). “A redução está no mesmo patamar que é obtido com a medicação”, destaca o professor.


Redução

De acordo com Bacurau, esperava-se uma redução média da pressão em torno de 5 milímetros, o que já seria considerado um resultado satisfatório. “No entanto, esse indice foi de aproximadamente 13 milímetros, o que comprova o efeito positivo do treinamento de força”, observa.

Depois do final do período de treino, os pacientes foram acompanhados durante quatro semanas. “Verificou-se que eles mantinham o mesmo efeito de queda da pressão registrado durante o tempo de realização dos exercícios”, afima o professor da EACH. “Este resultado é imporante, porque serve como estímulo ao hipertenso a continuar com a musculação, ajustando o treinamento às suas necessidades de vida”.
A pesquisa também mostrou que os participantes tiveram aumento da força física e da flexibilidade. “Há uma tendência de que a pressão aumente conforme a idade, numa fase em que as pessoas tem mais dificuldade para se movimentar e menos força para executar até tarefas simples”, afirma Bacurau. “Antes se acreditava que a musculação poderia ser perigosa para os hipertensos pelo risco de problemas cardíacos, mas hoje as pesquisas mostram seu potencial na redução de problemas cardiovasculares”.
O professor recomenda que as pessoas interessadas em fazer treinamento de força procurem orientação de médicos e profissionais de atividade física. “O ideal é fazer mais de um tipo de exercício, realizando também atividades aeróbias, que já tem efeito comprovado no controle da pressão arterial, além de outros benefícios”, conclui.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

SITE DIVULGA LISTA DOS JORNALISTAS MAIS PREMIADOS

O site "Portal dos Jornalistas" _  http://www.portaldosjornalistas.com.br _publica a lista dos jornalistas mais premiados, de acordo com o rankink de Jornalistas & Cia. 


 Eliane Brum é a mais premiada jornalista de todos os tempos
Entre os top ten, está acompanhada por Miriam Leitão, Caco Barcellos, Marcelo Canellas, José Hamilton Ribeiro, Mônica Bergamo, Carlos Wagner, Giovani Grizotti, Clovis Rossi e Fernando Rodrigues

A gaúcha Eliane Brum é a mais premiada jornalista brasileira de todos os tempos e não se tome o substantivo feminino “premiada” como sinônimo de feminismo. Ganhou entre todos os jornalistas brasileiros a primeira colocação no Ranking Jornalistas&Cia dos Mais Premiados Jornalistas Brasileiros com a expressiva marca de 840 pontos, advindos das dezenas de prêmios de jornalismo que ganhou Brasil afora ao longo de sua bem sucedida carreira.
Blogueira de Época, desde que deixou a pedido o dia a dia da revista e o cargo de repórter especial, Eliane continua sendo líder de audiência, com seus textos instigantes e reportagens memoráveis. Tudo isso agora dividido com cinema e literatura.
Para provar que as mulheres passaram a exercer uma influência estupendamente grande no cenário jornalístico, a segunda jornalista mais premiada de todos os tempos, no Brasil, pelo Ranking Jornalistas&Cia, é a carioca Miriam Leitão, que divide seu concorrido tempo entre O Globo, GloboNews, CBN e TV Globo. Ele obteve a expressiva marca de 685 pontos.
O terceiro mais premiado jornalista brasileiro é o também gaúcho Caco Barcellos, atual condutor do programa Profissão Repórter, da Rede Globo, repórter talentoso desde o berço jornalístico, no Rio Grande do Sul. Deixou sua marca por onde passou, arrebatando múltiplos prêmios. Com as várias conquistas nesses quase 40 anos de carreira, somou 675 pontos, ficando a apenas 10 pontos de Miriam.
Em seguida, na quarta colocação, outro gaúcho, Marcelo Canellas, também da Rede Globo, porém atuando sob a responsabilidade da sucursal de Brasília. Ele atingiu 605 pontos. Como o Brasil todo tem acompanhado, suas matérias estão entre as melhores da televisão brasileira, daí estar sempre presente como finalista nas mais importantes premiações do País.
O caipira paulista de Santa Rosa do Viterbo José Hamilton Ribeiro arrebatou o quinto lugar, posição que não lhe tira o título de um dos maiores repórteres da história do jornalismo brasileiro. Há quase três décadas no Globo Rural, seus prêmios começaram na memorável Realidade dos anos 1960 e se prolongaram pelas cinco décadas seguintes, incluindo vários Esso, dos quais muito se orgulha. Inspirador de Jornalistas&Cia, nossa equipe rende a ele uma homenagem especial pela vitoriosa carreira e pelos 595 pontos conquistados.
Em sexto lugar, outra paulista, a colunista Mônica Bergamo, que entra nesta primeira edição do Ranking Jornalistas&Cia com 552,5 pontos. Grande parte de suas conquistas surge a partir de sua entrada no colunismo, por iniciativa de Otávio Frias Filho, que a convidou para suceder a Joyce Pascowitch na Ilustrada da Folha de S.Paulo. Titular da mais prestigiada coluna do País, Mônica tem publicado em seu espaço alguns dos mais importantes furos do jornalismo brasileiro.
Como sempre dando um banho de bom jornalismo, os gaúchos também ficaram com a sétima colocação do Ranking. Carlos Wagner, de Zero Hora, atingiu 537,5 pontos. Entra ano, sai ano, dificilmente os prêmios de maior prestígio do País chegam ao desfecho sem que ele tenha ao menos um trabalho entre os finalistas.
O oitavo classificado, para variar um pouco, também é gaúcho. Giovani Grizotti, contratado da RBS, é um dos mais importantes repórter da atualidade. Afiliada da Globo no Sul, os mais importantes trabalhos jornalísticos da RBS acabam virando atrações para os telejornais de rede da Globo, como Jornal Nacional, Jornal da Globo e Hoje, além do Fantástico. E é neles que as principais matérias de Grizotti são exibidas cotidianamente. Ele atingiu a marca de 530 pontos.
Em nono lugar vem o terceiro paulista da lista dos mais votados de todos os tempos: o repórter especial e articulista Clóvis Rossi, com 520 pontos. Clóvis é um dos mais respeitados profissionais do jornalismo brasileiro, já há quatro, cinco décadas. E não é sem razão que esse talento é há anos aproveitado de forma intensa pela empresa em que trabalha há décadas, a Folha de S.Paulo.
Para fechar os top ten, um paulista que adotou Brasília e que ali, na sucursal da Folha de S.Paulo, tem feito história. Repórter especial e articulista, Fernando Rodrigues é um dos mais preparados jornalistas brasileiros no campo da análise política. Além de muito bem informado, vale-se do seu conhecimento e do manuseio de uma ampla base de dados públicos para mostrar as entranhas econômicas e os jogos de interesses dos políticos e da política brasileira aos leitores do jornal e de seu blog. Sua marca, no Ranking, foi de 405 pontos.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

NO TEMPO DA ELDORADO : O SOM QUE EMBALAVA A MADRUGADA

Quem ouviu, ouviu. Quem não ouviu, só correndo atrás.
O som diferenciado (na forma e no conteúdo) da Eldorado SP, no tempo do AM 700 khz, (década de 1970) embalava o sonho dos ouvintes ligados nos grandes clássicos da "Música Popular Norte-Americana".
A voz padrão gravada do José Avila Guimarães Barroso frisava o nome do programa, enquanto o "Harlem Nocturne", de fundo, dava o clima  para o locutor do horário caprichar no nome das músicas. Tudo era dito ao pé do ouvido, para cada um dos ouvintes. Não me lembro do intérprete usado no prefixo do programa. Encontrei essa do Ray Anthony, muito parecida. Apresentei esse programa por quase três anos. Vai essa versão mesmo pra matar saudade...


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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

ARTE, CIÊNCIA E FILOSOFIA OU A CAPACIDADE DE SE REINVENTAR

Um novo realismo


Ferreira Gullar
(Folha de São Paulo_ 27-11-2011)

Quem, como eu, admite que a vida é inventada e que a arte é um dos instrumentos dessa invenção terá do fenômeno artístico, obrigatoriamente, uma visão especial.


Não é só através da arte que o homem se inventa e inventa o mundo em que vive: a ciência, a filosofia, a religião também participam dessa invenção, sendo que cada uma delas o faz de maneira diferente, razão por que, creio, foram inventadas.


Se a filosofia inventasse a vida do mesmo modo que a ciência ou a religião o faz, não haveria por que a filosofia existir.


A conclusão inevitável é que todas elas são necessárias, ainda que cada uma a seu modo e sem a mesma importância para as diferentes pessoas. E o curioso -para não dizer maravilhoso- é que, de uma maneira ou de outra, a maioria das pessoas, senão todas, usufrui, ainda que desigualmente, de cada uma delas.


A arte é exemplo disso. Não importa se esta ou aquela pessoa nunca viu a Capela Sistina, porque, no dia em que a vir, se renderá à sua beleza. Isso vale igualmente para a ciência, a religião ou a filosofia, que atuam sobre nossa vida, quer o percebamos ou não.


É que somos seres culturais, e não apenas porque nos apoiamos em valores éticos, estéticos, religiosos, filosóficos, científicos -mas porque eles são constitutivos dessa galáxia inventada que é o mundo humano.


Como numa galáxia cósmica, a diversidade da matéria e as relações de espaço e tempo, de presente, passado e futuro, fazem com que, de algum modo, tudo ali seja atual, já que qualquer um de nós pode encontrar numa frase de Sócrates, num verso de Fernando Pessoa, numa imagem pintada por Rembrandt, a verdade ou a inspiração que nos reconciliará com a vida.


Isso não significa que devamos pensar como Sócrates ou pintar como Rembrandt e, sim, que a invenção do novo não implica a negação do que já foi feito, mas a sua superação dialética.


Todo artista sabe que a arte não nasceu com ele e que um dos sentidos essenciais de sua obra é incorporar-se a essa galáxia cultural que constitui a nossa própria existência.


Não entenda isso como uma proposta de conformismo, que seria contrária à minha própria tese de que o homem se inventa e inventa o seu mundo, já que seria impossível inventá-lo se apenas repetissem o que já existe.


Por isso mesmo, é perfeitamente natural que alguns artistas de hoje busquem expressar-se sem se valer das linguagens artísticas e, sim, antes, repelindo-as, para inventar um modo jamais utilizado por artistas do passado.


Como já observei, entre esses há os que simplesmente negam a arte e outros que pretendem criar arte valendo-se de elementos antiartísticos ou não artísticos.


Em princípio, suas experiências não têm que ser negadas, uma vez que essa sua atitude radical pode suscitar expressões surpreendentes. E isso às vezes ocorre, embora não seja frequente.


Não resta dúvida de que quem opta por uma atitude tão radical merece atenção e crédito, por seu inconformismo e por sua coragem, mas isso, por si só, não basta.


É preciso que dessa opção radical e corajosa resulte alguma coisa que nos comova e se some a esse mundo imaginário de que já falamos. Honestamente, deve-se admitir que a audácia por si só não é valor artístico.


Nada me alegra mais do que me deparar com uma criação artística inovadora, mas, para isso, não basta fugir das normas, das soluções conhecidas e situar-se no polo oposto: é imprescindível que a obra inusitada efetivamente transcenda a banalidade e a sacação apenas cerebral ou extravagante.


O que todos nós queremos é a maravilha, venha de onde vier, surja de onde surgir.


E aqui cabe aquela afirmação minha -que tem sido repetida por mim e até por outras pessoas- de que a arte existe porque a vida não basta.


Nela está implícito que não é função da arte retratar a realidade, mas reinventá-la. É, portanto, o oposto do falecido realismo socialista que só faltou, em vez de pintar o operário, colocá-lo em carne e osso no lugar da obra.


E nisso não estaria muito distante de certos artistas de agora, ditos conceituais, como a que pôs casais nus em pelo nas salas do MoMA, de Nova York. Como essa arte visa gente de muita grana, bem que poderia chamar-se "realismo high society

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

PAPO-CABEÇA SOBRE JORNALISMO

Caro Leitor, você é cliente ou produto?

Eugênio Bucci,
jornalista, é professor da ECA-USP e da ESPM - O Estado de S.Paulo

(publicado em “ Estado de São Paulo” de 01-12-2011)

Que a pergunta acima não lhe soe agressiva. Só o que ela pretende é indagar sobre a natureza da relação que cada um de nós mantém com os veículos que nos trazem informações jornalísticas todos os dias. Alguns são aparentemente gratuitos, como as emissoras de televisão aberta. Por outros é preciso pagar uma assinatura ou o preço do exemplar, tanto faz se esse exemplar chegue até nós pelo correio, pelas bancas ou pelos chamados tablets, como o iPad. O cenário é suficientemente óbvio: às vezes, a gente paga pelo que lê; outras vezes, não.


Acontece que a gratuidade é mera aparência, ela de fato não existe. Quando a gente não paga nada em dinheiro, paga em olhar. É aí que, em vez de cliente, a gente vira produto.


Pensemos na televisão comercial de sinal aberto. Ela tem um modelo de negócio bastante conhecido: o que a sustenta é a receita de publicidade. A mercadoria essencial do negócio da televisão aberta é o tempo da programação que vende aos anunciantes. Em termos menos abstratos, o que ela comercializa, no fundo, é o olhar de seu público. Seu negócio é atrair olhar - em bom número e de algum poder aquisitivo - para depois vendê-lo aos anunciantes.


Nada de indigno nesse modelo, que é legítimo, legal e democrático. Apenas uma observação: nele o cliente é o anunciante; quanto a nós, o público, bem, somos o produto, somos aquilo que é vendido. Em troca da programação que recebemos da TV, nós a remuneramos com o tempo do nosso olhar que dedicamos aos filmetes de publicidade. Trata-se de um escambo consentido e consagrado. Tudo bem. Assim tem funcionado, de modo eficiente e lucrativo, ao menos até hoje.


Pensemos agora na relação de troca que você mantém com este jornal. A resposta é relativamente simples, embora híbrida. Aqui, você, leitor, é cliente, pois o exemplar que você tem agora nas mãos é pago. Ao mesmo tempo, você é produto, pois há publicidade à sua espera logo ali adiante, nas páginas mais à frente. Esses anunciantes pagaram para ter acesso aos seus olhos, para ter um ou dois segundos da sua atenção. Eles esperam que você, ao tomar conhecimento do que eles estão divulgando, compre algum serviço, alguma coisa. Claro, você tem absoluta consciência da expectativa deles. Estamos, então, falando de um jogo limpo, transparente.


Com a internet as coisas já não são tão claras. Os modelos de negócio que há décadas estavam consolidados nos meios de comunicação convencionais foram transpostos para a web, embaralhando quase tudo. Há fórmulas em que o leitor ou espectador (que alguns chamam de "internauta") precisa desembolsar seus trocados para ter acesso às notícias, aos vídeos ou aos textos (a que chamam "conteúdo"). Em outras fórmulas a gratuidade aparente prevalece - e aí, também, a publicidade paga ou pagará a conta, ainda que de forma indireta. E então? Que fórmula vai prevalecer na era digital?


Se para todos os cidadãos a interrogação é pertinente, para os jornalistas é crucial, para não dizer excruciante. De que modo a imprensa se deve relacionar com o público? Deve tratá-lo como produto ou como cliente? Se as fórmulas híbridas vão prosseguir, qual o estatuto de cada um desses dois componentes? O público, para a instituição da imprensa, deve ser visto antes como cliente ou como produto? Diante disso, os jornalistas são agregadores de olhar que depois será comercializado? Ou eles devem antes buscar a sua sustentação fundamental na remuneração - em dinheiro - que vem do público?


O que vai ficando claro, ao menos até aqui, é que, se o público não financiar diretamente com seu dinheiro - e não apenas com seu olhar - a atividade da imprensa, nós não teremos jornalismo independente. Não custa relembrar: jornalismo independente traduz-se em redações que não se dobram ao Estado ou aos governos, assim como não cedem aos interesses de anunciantes, de igrejas, de partidos ou de ONGs. Se os cidadãos não derem sustentação a isso, não haverá imprensa livre.


Em resumo, ainda que a receita publicitária, na imprensa, possa ter cifras mais expressivas do que a receita vinda da venda de exemplares ou de assinaturas, os modelos de negócio no jornalismo devem saber pôr os interesses do público acima - e não ao lado - dos interesses dos anunciantes. A razão para isso é econômica, política e ética.


Econômica: a receita publicitária existe para remunerar o olhar do público e, desse modo, o público, dono do olhar, é quem financia, na prática, todas as operações jornalísticas. É uma ilusão acreditar que o cliente final é o anunciante.


Política: ao dar sustentação econômica à imprensa, o público dá-lhe sustentação política, pois protege a imprensa contra poderes que são estranhos aos direitos e interesses dos cidadãos. É o público que sustenta a imprensa como o contrapoder que ela deve ser.


Ética: se o público é quem paga a conta, seja com olhar, seja com dinheiro, a ele é devido respeito, na forma de informações confiáveis e de uma atividade cujos efeitos sejam, sempre, a expansão da liberdade.


De toda forma, nada disso ainda está resolvido. Muitos erros ainda serão cometidos. A boa notícia é que a pergunta que está no título deste artigo vem ganhando corpo. A propósito, o nosso título é inspirado num cartoon que circulou recentemente nas redes sociais do Brasil. Ele mostra dois porquinhos contentes comentando que na fazenda onde moram não precisam pagar por comida nem pela hospedagem. Originalmente publicado no site Geek and Poke, o cartoon recebeu depois uma legenda anônima, com uma crítica direta contra o Facebook, e assim correu o mundo. Eis o que diz a legenda provocativa: "Facebook e você. Se você não está pagando para usar, você não é o cliente. Você é o produto".


Em tempos em que o jornalismo precisa se redefinir como negócio, é bom prestar atenção a isso.





quarta-feira, 23 de novembro de 2011

NA HORA DE ESCOLHER TEMA, REALIDADE SURPREENDE CRONISTA

Qual é essa de “eu te amo”?

       Por João Ubaldo Ribeiro
(publicado no caderno 2 de “O Estado de São Paulo de 20-11-2011) 
Certos escritores, como eu e alguns amigos meus, têm dificuldade em planejar o que produzirão. Podem escolher assunto, fazer esquemas ou até diagramas, mas frequentemente um outro assunto se intromete onde não foi chamado, ou um personagem resolve adquirir autonomia e caprichos: o autor quer casá-lo, ele não casa, quer que ele morra e ele não morre e assim por diante. O resultado acaba por ser uma surpresa para o próprio escritor. Hoje mesmo está sendo assim. O título aí em cima não tem nada a ver como que eu pretendia (e ainda pretendo, se não houver outros percalços) abordar hoje, mas foi digitado quase em piloto automático. Quando dei por mim, já estava ele aí.

 É o seguinte. É que, até o momento em que escrevo, ainda não foi dispensado esse ministro parlapatão, que veio a público vociferando bravatas arrogantes e se apresentando como o durão aqui do pedaço, um exemplar cafajeste que certamente se acha sensível e deve cantar Chão de Estrelas em serenatas partidárias, chorar em cerimônias escolares e mandar“ um beijo no coração” de correligionários fiéis. Se eu fosse a presidenta, a demissão viria mais rápido do que a bala que ele afirmou ser necessária para sua saída, por falta de propriedade, senso comum e educação, para não falar em intimidade indevida, com um tuteio insolente e grosseiro ,que sugere uma proximidade inexistente, quase promiscuidade,tratando-se da chefa do Executivo.

“Eu te amo”  à presidenta, uma conversa; “ Eu te amo ”lá pras suas negas. Até Marilyn Monroe, que era Marilyn Monroe, quando cantou parabéns para Kennedy, entoou “happy birthday, Mr President”  e não o “dear John” ronronado a que, dizem por aí, ela até tinha direito. Isso para só ficar num aspecto, porque, de resto, a defesa deletem-se constituído, como já é de praxe, em negativas indignadas e invectivas contra a imprensa.

Trata-se, segundo ele, de denuncismo. Conversa velha de quem não tem nada a dizer. A não ser que tudo o que venho lendo e vendo sobre o assunto tenha sido forjado, está patente que ele mentiu. Mentir oficialmente, na condição de ministro de Estado, devia ser mais que suficiente para cartão vermelho.
Devia também dar processo e cana dura, embora, naturalmente, na atual conjuntura, isso seja incogitável. E, de qualquer forma, mentiu. Cadê o mais que justificado – perdão, senhoras – pé na bunda? Estão talvez organizando uma cerimônia saideira, como aquela em que o ex-ministro dos Esportes foi aplaudidíssimo e só faltou receber uma condecoração, com foguetório e banda de música? Dizem que a presidenta (geralmente escrevo “a presidente”, mas hoje precisei enfatizar o gênero dela) está preocupada em não deixar que a imprensa faça demissões ou force saídas. Mas não é a imprensa que demite ou força renúncias. São os fatos comprovados. Se se tratasse da mera vontade da imprensa ou de denuncismo gratuito, não haveria respaldo para as acusações. A imprensa está cumprindo seu papel, espelhando o que ocorre no País.
 Todo mundo sabe que se rouba em tudo quanto é canto, de todas as formas imagináveis. Rouba-se tanto, de clipes de papel a centenas de milhões de reais,que seria impossível levantar tudo. Portanto, o “denuncismo” não vai parar tão cedo, todo dia brotam ladroeiras novas. Tem a famosa governabilidade, responsável pelo estabelecimento de níveis assombrosos de cinismo, cara de pau e falta de princípios, que já eram altos antes, mas que atingiram novos patamares durante os governos de Lula.

Os partidos não querem dizer nada, a não ser a aglomeração de interesses empreguistas, clientelistas e de locupletação mesmo. Para satisfazê-los, é só distribuir colocações, posições, empregos, mamatas, sinecuras, ardis fiscais, truques salariais e outras benesses do poder em que a nossa república abunda.

 O Estado é de fato a GrandeTeta e o poder público, em todos os níveis, uma espécie de besta disforme e meio nojentona, em que se nutrem parasitas hematófagos de todas as extrações, de vampirões federais a pernilongos municipais. A governabilidade fica garantida assim e o pessoal adere ao governo pelas conveniências mais rasteiras.

 Historicamente, o Brasil foi sempre um país adesista. É costume aderir ao governo, pois fora dele, para muitos, não há salvação. Se o governo contrariar jeitosamente os partidos, eles não se rebelarão. O que é o partido X, se não os interesses de dr. Fulano, dr. Beltrano e dr.Sicrano?
 O indispensável é manter as bocas, isso é que é o exigido. Pela pátria, não, mas por isso eles farão sacrifícios, é pelas bocas que eles aderem e é pelas bocas que ficarão. Portanto, a governabilidade não é tão exigente. Se o governo contrariar o partido, mas, pelo outro lado, mantiver o pessoal amamentado, este permanecerá manso, quieto e obsequioso.

Agora vocês vejam como são as coisas. Falei em amamentação logo acima certamente movido por uma associação inconsciente. É que meu assunto hoje era bem mais ameno. Era peito. Isso mesmo, peito, mama. E mama feminina, pois continua válida, pelo menos para a suposta maioria, a observação de que, no homem, ela nem é útil nem ornamental. Eu pretendia coligir alguns pensamentos que me ocorreram, ao ver novamente mulheres de peito de fora, em manifestações na Europa. Fiquei matutando sobre o que é um peito hoje, em comparação com um peito há não tanto tempo assim.

Creio que minhas reflexões ou reminiscências ecoarão até entre os mais jovens, que, sustento eu, têm, sem dar-se conta, nostalgia por tempos mais recatados, ou pelo menos não tão escancarados. Afogados em peitos e traseiros expostos de todas as formas e por todos os lados, tenho certeza de que há muitos entre vocês que querem de volta suas boas e velhas repressões, era muito mais divertido. Trato disto na próxima semana, se os ministérios permitirem.

O ENCONTRO INUSITADO DE TRÊS GRANDES POETAS

Estátuas

De Luis Fernando Veríssimo
 (publicado em “O Estado de São Paulo”, caderno 2 de 20-11-2011)

Há uma estátua do Carlos Drummond de Andrade sentada num banco da Praia de Copacabana, uma estátua do Fernando Pessoa sentada em frente ao café  “A Brasileira” em Lisboa, uma estátua do Mário Quintana sentada num banco da Praça da Alfândega de Porto Alegre. Salvo um cataclismo inimaginável, as três estátuas jamais se encontrarão. Mas, e se se encontrassem?

– Uma estátua é um equívoco em bronze–diria o Mário Quintana,para começar a conversa.

– Do que nos adianta sermos eternos, Mas imóveis?– diria Drummond.

Pessoa faria “sim” com a cabeça, se pudesse mexê-la. E acrescentaria:

–Pior é ser este corpo duro sentado num lugar duro. Eu trocaria a eternidade por uma almofada.

– Pior são as cãibras – diria Drummond.

– Pior são os passarinhos – diria Quintana.


**************************


– Fizeram estátuas justamente do que menos interessa em nós: nossos corpos mortais.

– Justamente do nosso exterior. Do que escondia a poesia.

– Do que muitas vezes atrapalhava a poesia.

– Espera lá, espera lá (Drummond). Minha poesia também vinha do corpo. Minha cara de padre era um disfarce para a sensualidade. Minha poesia dependia do corpo e dos seus sentidos. E o sentido que mais me faz falta, aqui em bronze, é o do tato. Eu daria a eternidade para ter de volta a sensação na ponta dos meus dedos.


Pessoa:


–O corpo nunca ajudou minha poesia. Eu e meus heterônimos habitávamos o Mesmo corpo, coma sua cara de professor de geografia, mas não nos envolvíamos com ele. Nossa poesia era à revelia dele.E fizeram a estátua do professor de geografia.

Quintana:

– Pra mim, o corpo não era nem inspiração nem receptáculo.

Acho que já era a minha estátua, esperando para se livrar

de mim.


***


– Pessoa – diria Drummond– estamos há meia hora com você nesta mesa do Chiado, e você não nos ofereceu nem um cafezinho.

–Não posso – responderia Pessoa.

–Não consigo chamar o garçom. Não consigo me mexer .Muito menos estalar os dedos.

–Nós também não...

– Não posso reagir quando sentam à minha volta para serem fotografados, ou retribuir quando me abraçam, ou espantar as crianças que me chutam, ou protestar quando um turista diz “Olha o Eça de Queirós”...

– Em Copacabana é pior – diria Drummond.

– Fico de costas para a praia, só ouvindo o ruído do mar e o tintilar das mulheres, sem poder me virar...

–Pior, pior mesmo– diria Quintana– é estar cheio de poemas ainda não escritos. E não poder escrevê-los, nem em cima da perna.Os três concordam: o pior é serem poetas eternos, monumentos de bronze à prova das agressões do tempo,fora poluição e vandalismo – e não poderem escrever nem sobre isto.

As estátuas de poetas são a sucata da poesia. E ficariam os três, desolados e emsilêncio, até um turista apontá-los para a mulher e dizer.

– O do meio eu não sei, mas os outros dois são o Carlos Gardel e o José Saramago.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

EM TESTE NOVA ARMA CONTRA ANSIEDADE






"Hormônio do amor" age como tranquilizante"


Descoberta nova função para o hormônio que aumenta a produção do leite materno e melhora a contração do útero durante o parto.

Rubens Zaidan

Um estudo realizado pelo departamento de neurociências e ciências do comportamento, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, demonstrou que a ocitocina - conhecido como o “hormônio do amor” - funciona no organismo como tranquilizante. Os testes de simulação para falar em público, realizados com voluntários saudáveis para investigar a ação da substância em situação de ansiedade social, mostraram que o hormônio reduz a ansiedade antes do teste, de modo parecido com os benzodiazepínicos, porém sem provocar sedação, tolerância ou dependência.





A informação é do neurocientista Alexandre de Souza Crippa, orientador da farmacêutica Danielle Chaves, (foto) que fez esse trabalho na seqüência da dissertação de mestrado defendida em 2007. Os resultados serão publicados no Journal of Psychopharmacology, revista da Associação Britânica de Psicofarmacologia.
Crippa explica que além da ocitocina ter reduzido a ansiedade antecipatória (expectativa dos voluntários antes dos testes), sem os efeitos indesejados de ansiolíticos como o diazepam e lorazepam, também teve ação mais rápida do que os antidepressivos utilizados para tratar os diversos tipos de ansiedade.
“Os antidepressivos contra ansiedade patológica demoram de duas a três semanas para fazer efeito, ao contrário da ocitocina que age imediatamente”- enfatizou.



Danielle Chaves pondera que a ocitocina embora tenha reduzido a ansiedade antecipatória dos participantes, não influiu no grau de ansiedade que existe durante o teste de falar em público. “Como é uma forma diferente de ansiedade, a idéia agora é fazer outras simulações utilizando nos testes doses maiores do hormônio.” Paralelamente, a pesquisadora está avaliando a ação desse hormônio contra o transtorno de ansiedade generalizada, em voluntários, e contra o pânico, em ratos. Os resultados até agora, segundo ela, que trabalha na tese de doutorado,”tem sido animadores”.

Voluntários saudáveis

Participaram do teste 28 voluntários masculinos saudáveis: 50 minutos antes do teste, 14 participantes receberam doses intranasais de ocitocina e outros 14 de placebo (substância inócua). Nenhum tinha consciência do que estava recebendo. A quantidade de ocitocina utilizada no teste (24UI) é maior do que a utilizada em clínicas ou hospitais para aumentar a produção de leite materno ou facilitar a contração do útero durante o parto.



O psicólogo clínico Renato Menezes Vieira Carvalho, de 32 anos, um dos voluntários saudáveis, recebeu ocitocina. Mas até agora não sabia se havia recebido ou não placebo e nem o nome da substância que estava sendo testada.
“Não fiquei com ansiedade em momento algum do experimento. Parece que funcionou, pois continuei também tranqüilo quando participei do teste para falar em público”. O teste simulado foi feito no laboratório de saúde mental do Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto. Inicialmente, o grau de ansiedade é obtido de acordo como os parâmetros: calmo/agitado; preocupado/tranqüilo e tenso/relaxado. É aferido também se a pessoa está alerta/sonolenta e preocupada/tranqüila.


Cada voluntário teve dois minutos para pensar em um discurso de quatro minutos sobre tema neutro, como o “sistema de transporte de sua cidade”. Depois,cada um foi colocado diante de uma câmera de TV e à medida que ia falando podia se ver no monitor ao lado. Além das reações, foram registrados níveis de pressão arterial, batimento cardíaco e outros parâmetros elétricos do organismo.

“Hormônio do amor”

A ocitocina é um hormônio produzido no hipotálamo e depois armazenado na neurohipófise. Atua de forma central e periférica.
“A ação periférica é bem conhecida: facilita a produção do leite materno e também participa da contração do útero durante o parto.”, explica Danielle Chaves. Até agora, segundo ela, o que se sabe sobre a ação central é que desempenha algumas funções na memória e no aprendizado. Conta que a substância já é conhecida como “hormônio do amor” e facilitador social. Estudo americano, segundo ela, mostrou que ratos com níveis maiores de ocitocina eram monogâmicos enquanto os com níveis menores desse hormônio agiam como polígamos.



“ E o interessante é que quando se dava ocitocina para o grupo de ratos polígamos, eles se tornavam monogâmicos. E o contrário também: na presença de um antagonista da ocitocina, os monogâmicos se transformavam em polígamos.” Danielle Chaves diz que tanto homens como mulheres possuem normalmente níveis basais desse hormônio. “As mães que amamentam tem níveis maiores de ocitocina, níveis menores de ansiedade e de pressão arterial. Já o homem, apresenta naturalmente níveis basais de ocitocina. Esses níveis só aumentam em algumas situações, especialmente durante contato social prazeroso, abraço ou envolvimento pessoal.”



O professor Alexandre de Souza Crippa revela que a linha de pesquisa sobre ansiedade social começou em 2005 depois que viu um artigo na Nature, relacionando a ocitocina com o aumento da confiança entre as pessoas.
“Me pareceu que se tratava mais de um problema ligado à ansiedade social do que ao aumento de confiança entre pessoas”- disse Crippa, também coordenador do Grupo de Estudo e Pesquisa em Ansiedade Social do HC da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto.


terça-feira, 12 de julho de 2011

A QUIMICA E AS DOENÇAS NEGLIGENCIADAS

PESQUISA BUSCA REMÉDIOS MAIS
EFICAZES E SEGUROS PARA AS
DOENÇAS DOS MAIS POBRES

Por Rubens Zaidan
Revista Comciencia_Labjor
www.comciencia.br/comciencia

A cada três minutos – tempo de um intervalo comercial no horário nobre da televisão – seis crianças morrem em todo o mundo, vítimas da malária. Ou uma, a cada trinta segundos, segundo estatística impessoal, que passa longe do sofrimento dos doentes, que seguem sem vacina ou remédio eficaz para o tratamento no dia-a-dia. Mas essa realidade é apenas a “ponta do iceberg” da tragédia que atinge diariamente mais de um bilhão de pessoas do planeta, infectadas pelas doenças chamadas negligenciadas. Três mil pessoas morrem por dia e mais de um milhão por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde, vítimas de malária, doença de Chagas, leishmaniose, esquistossomose, tuberculose, hanseníase, entre outras. Sem contar os anos de vida produtivos perdidos pelos sobreviventes que moram, em sua maioria, em países da África, Ásia e América Latina.

Complicando ainda mais esse “quebra-cabeça” que desafia cientistas – sejam médicos, economistas ou sociólogos –, apenas 10% dos quase US$150 bilhões gastos por ano em pesquisas na área da saúde, em todo o mundo, são aplicados no desenvolvimento de medicamentos para doenças que atingem 90% da população. Mesmo o Brasil sendo um dos países em desenvolvimento que mais investem recursos em estudos de novas formas de tratamento para essas doenças (cerca de R$70 milhões por ano), apenas 1% das medicações lançadas nos últimos 25 anos foram específicas para tratar as doenças dos mais pobres.

A primeira oficina de prioridades em doenças negligenciadas no Brasil ocorreu em 2006, através de uma parceria entre os Ministérios da Saúde e da Ciência e Tecnologia e a Secretaria de Vigilância em Saúde. Nesse ano, foram definidas as prioridades do programa em doenças negligenciadas. Até hoje, entretanto, nenhuma molécula em estudo nos laboratórios de química medicinal do Brasil, entrou em fase clínica de testes com seres humanos. Para tentar interferir nessa realidade, pesquisadores brasileiros da área de química medicinal – que reivindicam mais verbas oficiais e parcerias público-privadas que assegurem a continuidade das pesquisas básicas – investem na descoberta de novas moléculas para o desenvolvimento de medicamentos eficazes e baratos contra as doenças transmissíveis esquecidas pelos laboratórios farmacêuticos multinacionais, por razões de mercado.

Gargalos

Tanto o INCT de Biotecnologia Estrutural e Química Medicinal em Doenças Infecciosas do MCT/CNPq/Fapesp (INBEQMeDI), como o Centro de Referência Mundial em Química Medicinal para Doença de Chagas da OMS, instalados no Instituto de Física da USP, de São Carlos, mantêm equipes multidisciplinares à procura de novas moléculas que funcionem contra doença de Chagas, malária e esquistossomose, principalmente.

O pesquisador Rafael Guido, especialista em planejamento de novas moléculas, do INBEQMeDI, acredita que o maior gargalo da pesquisa é encontrar a molécula com todas as propriedades farmacêuticas, “que seja eficaz, segura, possa ser ingerida por via oral, sem causar efeito colateral grave”. O Centro de Referência Mundial em Química Medicinal para Doença de Chagas da OMS, coordenado pelo professor Adriano Andricopulo, recebe moléculas da OMS que são inibidoras do parasito de Chagas, que precisam ser otimizadas. Segundo Rafael Guido, o grande diferencial desse laboratório, que ganhou uma disputa com concorrentes do mundo todo junto à OMS, “foi o comprometimento e a qualidade com a pesquisa que estava realizando”. Para ele, é importante que os países do Terceiro Mundo criem políticas públicas para produzir os novos medicamentos para doenças negligenciadas, enquanto as grandes indústrias farmacêuticas não atendem às populações pobres. “As indústrias começam a perceber que investir nas doenças negligenciadas é atrativo não do ponto de vista financeiro, mas social e, como parte do marketing, faz bem para a imagem da indústria”.

Outro centro de pesquisas de São Carlos em doenças negligenciadas é o do Grupo de Química Medicinal do Instituto de Química da USP. O professor Carlos Montanari, coordenador da equipe, está empenhado em submeter substâncias que atacam os tripanossomatídeos (protozoários que causam a doença de Chagas) a ensaios pré-clínicos. O custo, nessa fase, segundo ele, gira em torno de um milhão de dólares e há necessidade de participação da indústria farmacêutica. Lembra que cada projeto pluridisciplinar exige pelo menos US$10 milhões para entregar de duas a três diferentes classes de substâncias químicas (ou biológicas) para as fases clínicas.

O professor aponta a falta de conexão entre os grupos que trabalham no país na mesma área como mais um problema. “Cada grupo produz resultados em determinadas áreas e não inclui pesquisas fundamentais de outros grupos para avançar o conhecimento, principalmente na busca de novas moléculas pequenas com propriedades bem qualificadas no espaço químico-biológico”. Montanari considera os grupos de pesquisa como grandes ilhas de elevada capacidade técnico-científica, “sem capacidade de agregar, principalmente quando inovação é fundamental. E, inovação, tem que ocorrer na academia”.

Para o químico Roberto Santana, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, da USP, um dos motivos para o número elevado de óbitos dos portadores das moléstias negligenciadas, “é a falta de ferramentas adequadas para o diagnóstico e tratamento dessas doenças”. Em trabalho conjunto com o professor João Santana, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, e o químico Douglas Wagner Franco, do Grupo de Química Inorgânica e Analítica da USP de São Carlos, Roberto Santana desenvolveu complexos à base de rutênio e óxido nítrico, contra a doença de Chagas, eliminando parasitas com baixa toxicidade para o organismo. “A química inorgânica tem contribuído para o desenvolvimento desses novos compostos e é uma ferramenta portentosa na modificação estrutural, na disponibilização de sítios específicos para o mecanismo de interação molécula-parasita e na própria alteração do processo bioquímico do parasita”.


Impasse público-privado

As indústrias farmacêuticas faturaram, em 2010, em torno de US$850 bilhões em todo o mundo e investiram 10% em pesquisa de desenvolvimento e inovação, segundo declaração recente do professor Eliezer Barreiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ao analisar os desafios e as perspectivas da química medicinal. Para ele, existe uma crise de criatividade nas empresas farmacêuticas, que passaram a se interessar pelas moléculas desenvolvidas nas universidades, ”que podem ser capazes de inovar mais que equipados laboratórios industriais.”

O professor José da Rocha Carvalheiro, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, e pesquisador no Instituto de Saúde, dirigiu durante quase seis anos na Fiocruz o “Projeto Inovação em Saúde”. Como membro do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS) do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Inovação em Doenças Negligenciadas (INCT-IDN), da Fiocruz, acredita que o Brasil tem melhorado na área de pesquisas, inclusive fazendo parcerias. O CDTS, por exemplo, tem parceria com importante laboratório de biotecnologia dos Estados Unidos para desenvolver remédios contra a doença de Chagas. A parceria é de igual para igual, “pois tanto eles vêm aqui ver o que fazemos na intimidade do laboratório, como os nossos são recebidos lá e não são barrados na porta. O que ainda é raro”.

O conceito das doenças negligenciadas pela indústria farmacêutica, compartilhado pelas instituições Médicos Sem Fronteira, DNDi e OMS, dividiu o mundo entre os “have” e os “have not”. Em meio a um embate ideológico, segundo Carvalheiro, se discute o direito de patente ou não quando se trata de um bem público. Os Médicos Sem Fronteira sugerem separar o custo da pesquisa e desenvolvimento do preço da medicação, que inclui o que a “big-pharma” gasta em marketing. Já o Health Impact Fund propõe que as grandes indústrias do setor desenvolvam remédios para doenças da população pobre e, se provar que reduz a incidência da doença, a indústria teria acesso a um fundo para compensar a venda do medicamento a preço de custo. Outra proposta, para resolver o impasse, é semelhante aos créditos de carbono: cada vez que a “big-pharma” investe para desenvolver um produto novo e que tem mercado, seria obrigada a dar uma parcela aos pesquisadores de doenças negligenciadas. Carvalheiro lembrou ainda da proposta brasileira, “uma espécie de CPMF da remessa de lucros”. A indústria farmacêutica estrangeira instalada no país, que remete lucros, pagaria um pedágio da remessa que seria aplicado em laboratórios de universidades, instituições de pesquisa ou até laboratórios privados nacionais, que trabalham no desenvolvimento de remédios de interesse dos “have not”.


Chagásicos criam federação internacional

Portadores da doença de Chagas da América Latina decidiram se unir para garantir direitos, como o acesso mais fácil ao diagnóstico e desenvolvimento de medicamentos mais eficientes. A Federação Internacional das Pessoas com a Doença de Chagas, criada no ano passado em Olinda, alerta governos e comunidade para o fato das duas únicas medicações existentes terem sido desenvolvidas há mais de 40 anos. A doença de Chagas provoca 4 mil mortes por ano no Brasil. Existem até hoje, em todo o país, entre 4 a 6 milhões de brasileiros com a doença. Já na América do Sul, a estimativa oscila entre 11 a 12 milhões de pessoas. Na região de Campinas (SP) são quase 4 mil portadores registrados no serviço de atendimento da doença do Hospital de Clínicas da Unicamp, considerado o único serviço confiável para tratar e acompanhar os doentes na região.

O presidente da Associação dos Chagásicos de Campinas e Região, Osvaldo Rodrigues da Silva, ouve queixas constantes da falta de estrutura nas unidades básicas de saúde de Campinas, uma das mais desenvolvidas do país. A rede de saúde nem sempre dispõe de medicação e não cumpre os protocolos de atendimento consolidados para a doença. Aos 58 anos de idade, Osvaldo da Silva não esconde a angústia de ter perdido os pais, sogros e irmãos com Chagas. Ele também, como toda a família, foi contaminado pelo “barbeiro” transmissor do infeccioso Tripanozoma cruzi, na zona rural da pequena Indiaporã , divisa do estado de São Paulo com Minas Gerais e Mato Grosso. Só que, até hoje, o seu organismo não manifestou a doença. Mesmo assim, a ansiedade é permanente: ele não pode deixar de monitorar a doença, porque a ciência ainda não sabe quais pacientes assintomáticos poderão manifestar complicações cardíacas. Os únicos remédios usados para o tratamento da doença de Chagas em todo o mundo (nifurtimox e benzonidazol) além de terem sido produzidos quatro décadas atrás, tem baixa eficácia, provocam efeitos colaterais graves, como hiporexia (diminuição do apetite), perda de peso, náuseas, vômitos, alergia cutânea e neuropatia periférica.

Ana Maria de Arruda Camargo, assistente social do Hospital de Clínicas da Unicamp e integrante do conselho científico da Associação dos Chagásicos de Campinas, diz que os pacientes aguardam o surgimento de novas medicações. Ela lembra que com a globalização da doença, levada por migrantes latinos para os Estados Unidos. Canadá e Japão, os países mais ricos começam a investir no desenvolvimento de novos medicamentos.

“Os pacientes da fase crônica, por causa do controle dos sintomas, chegam a envelhecer e precisam não só de remédios eficazes, mas também de fácil acesso ao diagnóstico, acompanhamento constante, como em todas as doenças crônicas. Além disso, controle do pré-natal da mãe, e dos bancos de sangue”, concluiu.